sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Medos


Tenho medo de nunca mais ver o mundo com meus olhos tão fabuladores.

Tenho medo de ser esquecida. Que meus cabelos, olhos, sorrisos (às vezes sem graça) e presença não sejam mais lembrados.

Tenho medo de enlouquecer. Entrar tanto dentro de mim e perder a noção daquilo que sou.

Tenho medo de sofrer, chorar, cair, e não mais levantar.

Tenho medo das reações que provoco. Inclusive, das minhas próprias reações a mim.

Tenho medo daquilo que me dói e é de difícil cura.

Tenho medo de não superar meus desejos e sonhos.

Tenho medo de não ser (nem saber) o melhor que posso ser.

Tenho medo de não me encontrar com o pior de mim.

Tenho medo das minhas forças escassearem.

Tenho medo de não suportar mais a realidade da vida e desistir.

Tenho medo que a vida me baste (ela nunca bastou) e que a arte não me satisfaça.

Tenho medo que a arte não seja suficiente. Que as perguntas me devorem e as respostas se percam.

Tenho medo de ficar perdida para sempre.

Tenho medo que a tristeza não passe.

Tenho medo de não acreditar mais nos meus ideais.

Tenho medo de, acordada, sonhar meus piores pesadelos.

Tenho medo que as palavras não saiam e me sufoquem.

Tenho medo de ter medo de ter medo.

Tenho medo de matar. Tenho medo de morrer. Tenho medo de sobreviver.

Tenho tantos medos em mim que sei que não me encontrei com todos ainda.

Diante disso tudo, tenho medo que o medo me paralise. Não me permita viver e me mate.

sábado, 27 de julho de 2013

Garota passatempo


Ela é aquela que todos desejam, mas não amam.

Aquela que sempre é uma boa opção, mas nunca é a opção.

Aquela que é linda, mas nunca é considerada.

Aquela que merece todas as estrelas do universo, mas não a companhia de alguém.

Aquela que caminha despertando desejos e adormecendo o amor.

Ela é a bela borboleta que voa no jardim. Sozinha, sempre.

Ela é o vento que sopra, convidativo. Mas que depois do calor não interessa mais.

Ela é aquela que tem prazo de validade.

Ela é o rascunho, a obra de arte, mas não a sensibilidade do espectador.

Ela é o quadro mais admirado da exposição. Mas que volta sempre sozinho pra gaveta fechada.

Ela é o espetáculo sem público.

Ela é a promessa não cumprida. A prece não atendida. O telefonema não dado. A mensagem não respondida. A palavra não dita. A história não contada.

Ela é aquela que vale uma noite. Um trident. Uma mentira. Um cinema. Um vinho, talvez.

sábado, 6 de julho de 2013

O último dia


Hoje é o último dia que vou lidar mal com essa lembrança. Não quero esquecer, antes, quero aprender como lembrar.

Hoje é o último dia que serei assombrada. Fantasmas só são bons quando fazem a dor se movimentar, correr, até ganhar asas e partir. Será este um bom fantasma?

Hoje é o último dia que o incômodo vence. O sabor da derrota arde.

Hoje é o último dia que sigo na retaguarda. Pra se defender é preciso atacar.

Hoje é o último dia que nado em um mar desconexo. A elaboração do caos ensina a nadar talvez não com segurança, mas, em equilíbrio.

Hoje é o último dia que a embriaguez sentimental aumenta por maus motivos.

Hoje é o último dia que não me apaixono nunca mais. As paixões alegres compensam todo o risco.

Hoje é o último dia que.

Hoje é o último dia.

Hoje é o último.

Hoje é o.

Hoje é.

Hoje.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O olhar


O olhar que chama. O olhar de chama. O olhar de cama. O olhar que pega fogo. O olhar que molha. O olhar que seca. O olhar que transborda. O olhar que brinca. O olhar que sintoniza. O olhar que mente. O olhar que transparece. O olhar que massacra. O olhar que alivia. O olhar que regenera. O olhar que adoece. O olhar que afasta. O olhar que aproxima. O olhar que penetra. O olhar que bloqueia. O olhar que machuca. O olhar que acalma. O olhar que alarma. O olhar que assenta. O olhar que cuida. O olhar que ignora. O olhar que familiariza. O olhar que estranha. O olhar que violenta. O olhar que ama. O olhar que constrange. O olhar que incentiva. O olhar que cria espaço. O olhar que diminui. O olhar que aumenta. O olhar que definha. O olhar que delicia. O olhar que despreza. O olhar que menospreza. O olhar que valoriza. O olhar que assusta. O olhar que sossega. O olhar que liberta. O olhar que aprisiona. O olhar que tensiona. O olhar que relaxa. O olhar que excita. O olhar que indefere. O olhar que interfere. O olhar que indifere. O olhar que defere. O olhar que prende. O olhar que defende. O olhar que ameaça. O olhar que ousa. O olhar que repousa. O olhar que salta. O olhar que paralisa. O olhar que movimenta. O olhar que estatela. O olhar que endurece. O olhar que flexiona. O olhar que goza. O olhar que segura. O olhar que fascina. O olhar que deprime. O olhar que fala. O olhar que cala. O olhar que vê. O olhar que cega. O olhar que deseja. O olhar que morre. O olhar que mata. O olhar que suspende. O olhar que deleta. O olhar que deleiteia. O olhar que engana. O olhar que confia. O olhar que dilui. O olhar que condensa. O olhar que pensa. O olhar que improvisa. O olhar que mobiliza. O olhar que tedia. O olhar que entrega. O olhar que recebe. O olhar que julga. O olhar que entende.  

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Trilhando sonoridades


Fazendo minhas as palavras da Alanis...





"I'm broke but I'm happy
I'm poor but I'm kind
I'm short but I'm healthy, yeah
I'm high but I'm grounded
I'm sane but I'm overwhelmed
I'm lost but I'm hopeful baby...

I feel drunk but I'm sober                                               
I'm young and I'm underpaid                                           
I'm tired but I'm working, yeah...

I'm free but I'm focused
I'm green but I'm wise
I'm hard but I'm friendly baby
I'm sad but I'm laughing...

An' what it all boils down to
Is that no one's really got it figured out just yet
'Cause I've got one hand in my pocket
And the other one is playing the piano..."

"...       ...       ...      ...       ...       ...      ...       ...   "












domingo, 5 de maio de 2013

Os olhos que não veem


Ultimamente não tenho visto o mundo que me cerca. 

Não vejo as tempestades de emoções que insistem em me atingir. Venham de mim mesma ou das pessoas ao meu redor.

Não vejo o olhar cansado da atendente do caixa da lanchonete da Faculdade de Letras. Aquele olhar de quem quer ir pra casa, mas não pode porque tem que vender até a última gota de seu suor ao dono do seu trabalho.

Não vejo a testa enrugada da moça da portaria da biblioteca da FAFICH. Sempre com aquela cara de quem odeia o que faz. A obrigação de estar ali consome até as células de sua pele. 

Não vejo o passar do tempo que se mostra nos fios grisalhos do cabelo da faxineira da faculdade de Letras, que me confessa que quer pintá-los de chocolate, mas tem medo de se arrepender...

São tantas coisas que não vejo.

Não vejo a falta de jeito daquela adolescente pobre em lidar com o próprio corpo que carrega, pesadamente, na estufada barriga, alguns meses de vida. Não vejo seu tímido pedido de algum trocado. Pedido que se repete toda vez que volto para casa a noite.

Não vi essa semana o semblante sem graça do trocador do ônibus toda vez que o surpreendia olhando pra mim como quem admira uma mulher bonita. (Obrigada, moço!)

Não vejo a felicidade ingênua estampada no rosto da minha cahorrinha toda vez que eu a coloco na janela para apreciar a vista proporcionada pelo 4º andar do nosso apartamento. Não vejo que basta apenas uma lufada de vento no focinho para sua satisfação.

Não vejo o olhar delicioso do lindo rapaz da biblioteca que me olha ( e se deixa olhar) de forma tão prazerosa que faz minha respiração acelerar. Seu olhar é como um toque na pele.

Ah, meus olhos famintos que me mostram tudo aquilo que não vejo.

O que mais haverá por aí para não ser visto?